sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Que acusa a crueldade de uma dama


No meio da noite triste e escura
com o disco lunar redondo, brilhante,
esperançoso, quão dúbio amante,
o terno pássaro, em vão, procura...

As horas passam; a noite continua
perdem-se as penas, os olhos, a vida
a ave jazeu, morta, perdida,
no meio da noite triste e escura...

De cálidas mãos para vil criatura
de urtigas feita, que corta e tortura
de lágrimas claras forma mil defeitos:

eis o rosto daquela que augura
que em pobres rimas mata, enclausura,
meus versos perdidos, meus sonhos desfeitos.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

QUEM É O CONDUTOR?

Chegaram as férias! Finalmente, o último acorde do concerto do dia 12 de Julho deu entrada aos dias de merecido descanso... Primeiro, vem a excitação; depois, a calma e finalmente a busca deseperada por algo para fazer; e damos por nós, em dias em que o tédio aperta mesmo, a desejar ter pelo menos noventa minutos de aulas para "queimar" um pouco da monotonia.

Férias podem significar trabalho cerebral à mesma (irrita-me quando algumas pessoas encaram as férias com corpo e cérebro parados, às vezes com excepção do estômago, que está sempre cheio) e houve uma história verídica que ouvi que me fez reflectir um pouco sobre este assunto. Condução? Talvez... literalmente...

Vou deixar-vos a par desta história, para perceberem o meu raciocínio e para vos provar como às vezes um acto pode ser fatal. Aqui vai.

Aconteceu com um parente de uma amiga da minha mãe (que vou chamar de X) que tinha ido passar as férias dele com a família a Espanha. Ao que parece, foram umas férias muito bem passadas e todos regressaram a Portugal, satisfeitos.

Ora aconteceu que X sentia que ia muito apertado na camioneta em que viajava, por isso perguntou se não poderia mudar de veículo. Ao que lhe responderam que sim, que mal entrassem em Portugal iam fazer uma paragem e X mais a família poderiam trocar de camioneta.

Assim o fizeram. A camioneta ia praticamente vazia e, enquanto todos estavam sentados nas pontas, X decidiu sentar-se ao fundo, no lugar central.

A meio da viagem em portugal começou a chover até que houve mesmo um temporal. E, assim quis o destino (seria mesmo o destino?), o condutor não ia muito lúcido e conduzia com excesso de velocidade. De trás, o senhor X gritou para o condutor ir mais devagar, pois já pressentia perigo. Mas o condutor não fez caso.

Então, X levantou-se para ir lá pessoalmente. No momento em que se levantou, a camioneta caiu de uma ribanceira abaixo e foi contra um pinheiro. O pinheiro rasgou a camioneta a meio e o senhor X, que ia no meio, acabou por sucumbir com os ramos de um pinheiro espetados no corpo. O condutor não teve nada.




...




Esta história é verídica e é daquelas histórias que nos deixam de boca aberta (e, por outro lado, vontade de matar o condutor, caso o encontrássemos na rua). Por falar nisso, será que o condutor tem um peso na consciência ou anda a gabar-se da sua miraculosa sobrevivência e a culpar a chuva miudinha? Esta hipótese parece-me a mais viável.

No fim, a minha mãe comentou que ninguém pode fugir ao destino e que o homem tinha de morrer naquele dia, pois os actos de mudar de camioneta, sentar-se no meio e levantar-se tinham sido a prova de que, quando chega a nossa hora, temos de morrer de qualquer maneira.


Teoria com a qual eu não concordo. Por isso, aleguei que os actos que o homem teve foram fruto da sua vontade e não do destino. A minha mãe ripostou: pois, estava destinado a agir daquela maneira. Mas mãe, comecei, apetece-me beber água; não me parece lógico que o destino me tenha reservado a vontade de beber água; a vontade de beber água é fruto do calor, isso quereria dizer que o destino quis que estivesse calor para eu beber água... Ou seja, terminei, foi o homem que assim fez, tudo começou porque achou que ia apertado na primeira camioneta e quis mais espaço e acabou por fazer as escolhas erradas, mas daquelas irreversíveis... É como num teste: respondeu tudo mal e não passou...

Estava já dito que não foi obra do destino. Ainda que não o tenha sido, podíamos já antever a catástrofe, se tivéssemos parado para olhar para o ar do condutor da segunda camioneta, podíamos ter visto que não estava em condições de conduzir... modíamos supor a catástrofe através desse método, mas nunca considerá-la certa.

Por isso é que às vezes temos um leque de probabilidades de coisas para nos acontecerem, pois estiveram condicionadas por um acontecimento anterior... Fiz-me entender?

Lis litem parit (questão puxa questão)... e, do mesmo modo, acontecimento puxa acontecimento (ou mais que um, a não ser que seja daqueles em que não temos mesmo saída).




Deve ser impossível ao ser humano provar que o destino dito como "tem mesmo que acontecer e não podemos fazer nada" existe mesmo ou se somos mesmo donos por completo da nossa vida... Porque, ao mesmo tempo que, por exemplo, posso alegar que bati na porta porque a abri com força, outra pessoa pode alegar que eu tinha de abrir a porta com força para me magoar... É impossível decidir qual das duas hipóteses é a correcta, pois até agora só temos teorias e não provas concretas. E somos bem capazes de nunca o saber até à data da nossa extinção (essa, sim, está mesmo destinada, tudo tem um tempo de vida e isso está cientificamente provado).

Isto do destino é algo muito complicado... de apenas uma saída, mas muito complicado...

Agora vai pelas nossas crenças. Eu acredito que faço da minha vida o que quero. Mas que a todos nós nos acontecem coinciências engraçadas, lá isso é verdade! Conheço um casal que se conheceu por coincidência em trabalho e que, ao fim de uns anos sem se voltarem a falar, voltaram a ver-se em férias... no estrangeiro! Sim, que bela coincidência, com um mundo tão vasto, tinham de ir para o mesmo sítio, à mesma hora, local, rua... E, ao que parece, isso ainda aconteceu mais duas vezes... Até que, à última, lá se decidiram conhecer melhor, hoje estão casados há anos e não estou a vê-los a separarem-se muito depressa, como agora é moda.

Às vezes acontece... Essas pessoas a quem isso acontece dizem com frequêcia "foi o destino"... e nós ficamos a pensar...

Também já tive coincidências engraçadas, como, por exemplo, com um antigo colega meu, entrámos na mesma academia com a mesma idade, depois fomos parar à mesma escola, deixei de o ver no início do meu 10.º ano, parti um pé, fui parar ao hospital e vi que, por coincidência, a mãe dele trabalhava lá e no dia 12, não o via há um ano, estava a sair do camarim pois já estava atrasada (como sempre) e sem querer esbarrei contra ele... há séculos! Depois tinha de acontecer o mesmo há saída...

E há as coincidências menos engraçadas mas que terminam bem, como andar na rua e, quando damos conta, uma carrinha sem travões com gasolina acaba de bater no muro por onde nós tínhamos passado há um segundo e apenas nos salpicando o casaco com gasolina a menos de 5 cm de distância... creio que já comentei esta história com alguém...

Depois há a coincidências que terminam mal, mas dessas nunca tive nenhuma.




Enfim:

mas aquilo em que acredito mesmo, mas mesmo, é que as coisas nos acontecem mediante aquilo em que acreditamos. Confuso? Não muito, senão vejamos: se eu acreditar que o destino guia a minha vida, então vai guiar mesmo, pois sempre que eu tiver hipótese de escolher, não o vou fazer, mas antes tenho mais probabilidade de ficar à espera que o destino decida por mim... Pelo contrário, se eu acreditar que eu tomo conta da minha vida, tudo o que me acontece é por minha culpa (mesmo as coisas más) pois eu agi pela minha vontade e... acontecimentos puxam acontecimentos, como já foi referido.

Isto que eu acabei de dizer pode significar que, tanto uma teoria como a outra, estão correctas. Mas não foi comprovado (hoje em dia a nossa palavra não tem tanto valos quanto um par de cálculos). Por isso fica a eterna questão e ficaremos sem saber, pegando na história que contei. Mas afinal, na nossa vida,




QUEM É O CONDUTOR?

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Roberto Calderón

Se ficou com uma má ideia do heterónimo anterior, creio que vai achar o Aurélio de Souza boa companhia após conhecer melhor o Roberto Calderón. Este (por agora) último heterónimo de que se tem conhecimento biográfico é o frio numa tarde de Verão, o fogo numa floresta, uma mancha num pano branco...
Vive no século XIX e é primo directo de Aurélio de Souza. No entanto, ainda que este o tivesse combinado, sempre rejeitou aceitá-lo como família e adoptar o mesmo apelido, ainda que por vezes necessite da sua ajuda, ou para o livrar da prisão, ou pagar dívidas...

Desconhece-se o nome verdadeiro de Roberto Calderón e ele também não o recorda. Sabe-se que vivia com os avós na Serra da Estrela, pois a mãe havia morrido quando ele nasceu e o pai suicidou-se. Também tinha um irmão gémeo que morreu afogado no rio aos 3 anos.
Em suma, desde muito pequeno se habituou a ver as pessoas de que gostava a partir, uma atrás da outra. E chegaria também a vez dos avós. Roberto, que tinha na altura 7 anos, foi levado para um orfanato em Lisboa e, um ano mais tarde, transferido para Espanha, onde viveu os piores anos da sua vida devido a maus tratos e más condições na habitação. Aprendeu também a falar espanhol, passando mesmo por não ser português, nacionalidade que rejeitou. Os outros órfão também não lhe facilitavam a vida, com excepção de um, o seu melhor amigo. Aos 17 anos decidiu que precisava de um nome. Nunca soube qual o seu nome, sabia que tinha um, mas não recordava, pois era muito pequeno e os avós chamavam-no quase sempre por "meu anjo" ou "príncipe dos olhos lindos" (este mais a avó, devido ao facto de os seus olhos serem de um negro muito profundo, não se distinguindo praticamente a pupila da auréola do olho, pois eram da mesma cor). Por isso arranjou o nome de Roberto Calderón, Roberto, que significa "glorioso" e Calderón, pois o primeiro castigo que lhe fora inflingido no orfanato espanhol foi o de despejar-lhe um caldeirão a ferver pela cabeça abaixo. E tivera a glória de nem soltar um gemido mordendo a língua com força, que seria decerto apreciado por quem lho deitou.
Combinou a fuga com o amigo, Marcelo (que, anos mais tarde, se refugiaria em França sob o nome de Marcel Dubois e que também é um heterónimo, cuja biografia ainda não tenho dados, também por agora). No entanto, esta correu mal e o amigo foi apanhado. Quando deu por isso, Roberto já se encontrava bem longe...
Durante os anos que se seguiram viveu na rua e teve actos de criminalidade, na sua maioria, para sobreviver. Aos 31 anos, chegou a Portugal e reencontrou-se com o primo Aurélio; ambos os primos não podiam ser mais diferentes.
Roberto é um anarquista e tem ódio aos bens materiais. Aprendeu violino à conta própria, por isso gosta que as pessoas se esforcem sozinhas e sem ajudas; essas, sim, são fortes, gloriosas como ele...
É muito alto, tem cabelo comprido, encaracolado. Os olhos são muito escuros bem como o cabelo e tem tez morena, a contradizer com o primo, que é muito branco. Veste habitualmente o seu primeiro casaco e não tenciona ter outro, ainda que este esteja gasto e com buracos. Aurélio tenat obrigá-lo a vestir-se convenientemente, mas sem sucesso. Por isso, esconde de toda a gente que é seu primo.
Roberto consegue ser extremamente agressivo e chega a agredir as pessoas que não gosta, às vezes sem motivo aparente. É extremamente inteligente (aprendeu a ler e escrever sozinho) e muito calculista... age muito de acordo com instinto de sobrevivência, ao qual está habituado. Por isso, pode ter comportamentos sem pensar primeiro. Coloca, por vezes, os sentimentos acima da razão, o que o leva a ter actos estranhos.
Nunca ninguém lhe viu um sorriso; Roberto tem sempre uma expressão carregada, zangada por vezes... apesar da sua aparência feroz, os seus olhos mostram uma pessoa, no fundo, incapaz de magoar um animal (magoa mais depressa uma pessoa) e tem uma expressão muito triste... nunca ninguém o viu, contudo, a chorar; isto porque as lágrimas não lhe caem dos olhos, mas do coração, que diz não ter. ("Tengo los ojos adonde tenía mí corazón hace mucho tiempo").

Teve uma paixão secreta pela dama apaixonada do primo e que desapareceu. No entanto, nunca fez nada a respeito disso ("Cómo puedo? Ella es tan blanca y yo tan oscuro... ella es tan buena y yo tan malo... Cómo puedo se ella es el agua y yo el fuego?).
Os seus poemas e narrativas são dramáticas como as do primo; no entanto, mais fatalistas e abordam com frequência o desejo da morte. Não tem anseios na vida; só uma coisa o faz viver: ahora no puedo, pero arreglaré dinero y boy a buscar mi amigo Marcelo ni que tenga que corrir hasta el fin del mundo!
Trascrevo um poema de Marcelo (Marcel Dubois), que foi para França após a saída do orfanato e de Roberto Calderón.

Dans cette maison où tout est possible
les mots sont aussi livres,
et grandent, et vivent et meurent
comme le Soleil et faisent-il, jaune,
se torner un peu de rouge...

Dans cette maison où tout est possible
j'habite aussi livre comme les mots
je vole avec mes paroles
achetêr un peu de papier
pour écrire avec les mots que meurent...

(La tristesse habite le plus profonde de mon coeur
Je ferme mes yeux et vois tout noire...)

Dans cette maison où tout est possible
mon coeur ne me laisse pas avoir de rêves...


Verte así, muerto, no es sencillo,
Ni siquiera, triste, ese tu estado,
¡Ah, que es quedarse sepultado
Debajo de ún gran castillo!

En caminos llenos de soledad
Yo he encontrado dolor y muerte
Ni siquiera tú has tenido la suerte
De huir de esa cruda voluntad…

Estas paredes escuchan, hablan:
“¡No existen personas que hagan
Estos pobres salir de tristura!...”

¡Ah, cuánta pena de ellas yo tengo!
Pues que así, esperanzado, vengo:
Voy a levantarte de tu sepultura…

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Aurélio de Souza


Hummmm, pois... não é o heterónimo mais agradável... Com a sua cartola, luvas brancas e fato preto, Aurélio de Souza (cujo apelido adora por ter Z) impõe respeito e ser tratado como um nobre... e tem razões para isso...
Foi uma criança a quem lhe foi reservada uma minuciosa educação: aprendeu música, pintura, esgrima, tinha inclusive lacaios e professores particulares que lhe ensinaram as mais diversas disciplinas... Os pais (comerciantes muito ricos) conseguiam suportar todas as suas exigências que eram prontamente concedidas a um simples pedido seu. Nunca teve, por isso, muitos amigos e os únicos que tinha eram-no devido à sua condição na sociedade. Para mais, era extremamente selectivo: os seus amigos tinham de ser bonitos, ter boas roupas, andar nos melhores colégios e ter uma condição semelhante ou melhor que a sua. Caso tivesse melhor, era capaz de até lhe engraxar as botas só para ganhar a sua confiança...
Hoje, tem 37 anos e, por debaixo de todo o seu aparato, esconde um homem de cabelo curto, liso, sempre penteado, de olhos castanhos, de semblante pálido. Tem estatura média.
É conhecido por ter um gosto requintado e ser muito crítico, às vezes extremamente exigente com os outros: exige perfeição, beleza, tudo aquilo com que ele foi educado... Pode ser um pouco antipático.
No entanto, tudo aquilo que ele parece ser, não passa de uma capa. Quanto ele não daria para se desfazer de todo o seu dinheiro e ser livre! Mas tem consciência de que está demasiado dependente, se bem que nem tenta fazer um esforço para se libertar...
Teve uma história triste... tinha, na altura, 23 anos e, se conseguia ser mulherengo e todas se aproximavam e aguentavam a sua antipatia por interesse, houve uma que desapareceu da sua vida para o evitar... agoniavam-na os seus jantares, as suas roupas, a sua perfeição! Um dia, fez-lhe um ultimato: ou largava o seu estilo de vida e o seu dinheiro ou ela desapareceria para sempre... Mas ele sabia-se tão dependente!...
Ainda hoje se arrepende por o seu amor por ela não ter sido maior que o seu gosto por dinheiro. Não foi. Ela desapareceu. Hoje, ainda a procura ansiosamente pelas ruas, sob variados pretextos. Procura-a no caminho para casa, no caminho para as casas dos outros, procura-a no caminho para o médico... mas ela desapareceu...
Os seus poemas são tristes e melancólicos. O sentimento predominante é a saudade.

Verdes campos, longos rios, prados floridos
Que em uma tarde amena o Sol doirou
Bem como as lembranças que o longo rio levou
Mais os sonhos que reguei em tempos idos…

Por entre cantares, pássaros adormecidos
O luzir do Sol meu coração curou
Da ausência e da saudade por quem chorou
Em dias remotos, em lugares perdidos…

E, apesar de luzir no céu o Sol brilhante
Sinto assomar em mim a cada instante
Um coração ferido e sempre triste!...

Tivesse eu podido travar tal tormento!
Que o mesmo Sol me tivesse dado alento
No dia em que de meus olhos te partiste!...

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Francisco de Sá


Francisco de Sá é, de todos os meus heterónimos, o mais agradável. Quem se sentirá mal ao pé deste sonhador de caracóis loiros e olhos azuis?
Tem 23 anos e é um jovem inteligente. Podia participar nas folias dos outros jovens da sua idade, mas prefere o campo e sentar-se debaixo de uma árvore, umas vezes a tocar uma flauta feita por si, outras a imitar o arulhar dos pombos, ou mesmo estendido na relva a sonhar enqnato olha as flores. É de poucas palavras e, como é tímido, envergonha-se com facilidade. É ajudante de Saraiva Baptista que, de quando a quando, tem de lhe dar umas palmadas na cabeça; como senhor racional que é, Saraiva Baptista não tolera muito as súbitas distracções de Francisco.
Está sempre alegre e nunca tem uma expressão pesada. Muito modesto, nunca teve um momento de vaidade ao pé de elogios, que são frequentes.
Nunca tem maus pensamentos ou preocupações. Todo ele é flores, nuvens, rios, montanhas... Só sonha com coisas bonitas...
Adora borboletas e faz retratos minuciosos delas.
É alto e isso não lhe agrada muito: preferia ser mais baixo, porque assim os galhos das árvores não se partiam com facilidade quando as trepa. E também ficava ao nível das crianças, com as quais simpatiza muito.
No meio da confusão, é o pacificador.
E a sua poesia é sonhadora como ele, livre como ele e muito fluida... quase prosa... usa frequentemente elementos da natureza. Comove-se com facilidade por motivos mínimos para muita gente.


O pássaro está morto
E, como ele, também eu morro aos poucos
Cada vez que recordo,
Com saudade,
A canção do pássaro morto.


O pássaro está morto
E fui eu que o segurei morto.
Não pode voar para o céu.
É escura, triste e fria
A lápide do pássaro morto.


O pássaro está morto e eu também.
Deito-me debaixo da árvore onde cantou.
As folhas caem da árvore sobre mim
E eu fecho os olhos,
Começo a sonhar…


Enquanto morro eu tenho um sonho:
Nele, as flores têm mais cor
A árvore cobre-se de folhas novas
E, inquieto e feliz na janela,
Ouço cantar o pássaro morto…




sábado, 3 de maio de 2008

Saraiva Baptista

Saraiva Baptista é muito respeitado devido à sua idade e experiência. Tem 67 anos e durante toda a sua vida só teve uma paixão: o conhecimento. Cego pela ambição de saber mais, nunca sentiu curiosidade em fazer parte de outros prazeres da vida, como ter amigos (aliás, os seus contactos limitam-se todos a "conhecidos"), rir de uma piada ou jogar algo. Desconhecendo por completo a rua em que vive, o seu único mundo é um escritório desarrumado e onde pode dar largar à sua incansável actividade como pesquisador. Vive numa época em que ser-se o melhor significa sê-lo em tudo (é uma pessoa do século XVI), pelo que não pretende dar-se ao luxo de distorcer um pouco que seja esse seu objectivo de vida. Nunca está satisfeito com os seus resultados e procura uma perfeição praticamente inexistente no mundo humano. A sua imagem mostra bem o género de pessoa que é: baixo, de olhos azuis e barba branca, com uma vida razoável e é capaz de vestir a mesma roupa um mês inteiro, tão pouca é a sua preocupação em pensar nesses "detalhes mínimos e facultativos para a vida", diz ele. É muito racional, dedica-se à Filosofia e à História, especialmente. Também tem gosto por Ciências Naturais e Geografia. Irrita-se com facilidade e fica frustrado se algo não corre como havia sido idealizado por si.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

António Carvalho

António Carvalho é uma criança que não tem mais de 12 anos. Tem altura moderada, cabelo castanho e liso, olhos castanhos e sardas na cara. Surgiu do século XIV e tem uma vida razoável, pois é filho de um burguês. Como se espera das crianças da sua idade, também António é alegre, extrovertido e tem um talento nato para fazer os outros rir e para a comédia. Gosta de dançar. As pessoas pensam que não é muito inteligente pois de tudo, mesmo o mais sério, serve para a paródia. Faz-se rodear de muitos amigos e todos querem estar ao pé dele: com ele, não há espaço para a tristeza! De resto, tem uma vida normal, numa pequena vila ainda com elementos rurais. Apesar de não gostar muito de trabalhar, está sempre presente quando é preciso. O seu sonho é vir a ser actor, pois é um personagem muito magnética, nunca estando bem quando se insere num mesmo ambiente: tem necessidade de mudança e de se "vestir do outro", como costuma dizer. Não gosta de rotinas. Não é uma criança que se consiga controlar facilmente, ainda que praticamente jure a pés juntos que Calma é o seu "nome do meio". Mas todos têm (e com razão) dúvidas acerca disso. Aliás, tomando a palavra de António: "Sou a felicidade personificada no teatro da vida".
"Está um Sol fantástico; só não é de 5 estrelas porque está de dia." Quem se esquece desta frase tão seca?
"Quiero un vaso de agua y una naranja; como la naranja y bebo el agua."
"Oh, tienen tarta de Santiago! Tengo un tío que se llama Tiago y que hace unas tartas muy buenas, pero no es ningún santo!"
"Pelos vistos Robert Schumann compôs uma "Fantasia". Que giro, se bem que eu também tinha um tio inglês chamado Robert e a única fantasia que soube fazer valeu-lhe bem uma entrada de graça na actual morada de minha tia-avó, que Deus a tenha!"
"Para o Infinito e mais aquém, que não quero ir tão longe."
"Calma é o meu nome do meio: com calma me irrito, com calma me enfureço e com calma grito, para durar mais tempo."

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